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Estaria preparado se a morte chegasse para você hoje?

Dinheiro, honras, modas, posições brilhantes, triunfos políticos e literários, vaidades, prazeres… De tudo se preocupa o homem, exceto do principal: salvar a sua alma. E a morte aí vem e lá se vão as ilusões!

— Qual é o teu nome? — perguntou a um mocinho Luís XI, rei da França.
— Eu me chamo Estevão.
— Qual o teu emprego?
— Ajudante de cozinheiro.
— Quanto ganhas?
— Tanto quanto Vossa Majestade.
— E isso é possível?
— Sim, senhor! Porque Vossa Majestade, governando, e eu, no meu humilde trabalho, ganhamos o céu ou o inferno.

O Rei, maravilhado pela sabedoria da resposta, que revelou tão bom senso e “fidelidade”, nomeou Estevão camareiro seu.

Que adianta ao homem”, diz Nosso Senhor, “ganhar o mundo inteiro, se vem a perder a sua própria alma?” (Mt 16, 26). Perdida a alma, tudo perdido! Salva a nossa alma, tudo está salvo! Cuidemos do essencial. O resto é acidental. O essencial é a salvação da alma. O resto… o resto… vaidade, fumaça, ilusão, loucura.

A Sagrada Escritura diz que é infinito o número dos insensatos: Stultorum infinitus est numerusQuem são estes insensatos? Os que pensam em tudo neste mundo, exceto no grande negócio da eterna salvação.

Dinheiro, honras, modas, posições brilhantes, triunfos políticos e literários, vaidades, prazeres, de tudo se preocupa o homem, exceto do principal: salvar a sua alma!

O único bem deste mundo é salvar-se; o único mal, condenar-se.

E a morte aí vem e lá se vão as ilusões! Que levamos para a sepultura? Ai! nada, nada do que no mundo cobiçamos e desejamos loucamente. Só nos acompanham as obras boas ou más. As boas, para a recompensa, as más, para a perdição eterna.

S. Filipe Néri chamava louco quem não cuida da sua salvação. O único bem deste mundo é salvar-se, dizia S. Francisco Xavier, o único mal, condenar-se. E Santa Teresa repetia, cheia de aflições, às suas irmãs pedindo-lhes que rezassem pelos pecadores: “Minhas filhas, uma alma, uma eternidade! Uma alma que é perdida, tudo perdido!

A salvação é, pois, negócio importantíssimo. Único negócio! Negócio de uma perda irreparável. Perdem-se riquezas, bens, parentes, amigos, etc. Nem tudo está perdido! Perde-se a alma! Tudo perdido e para sempre!

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E há tanta gente que brinca com a salvação! Tantos gozadores da vida que aí sorriem da eternidade como se se tratasse de uma ilusão de devotas ou de um conto de fadas.

Tratemos desde já de preparar a nossa alma para a vida eterna. A morte aí vem. Tens certeza de viver longo tempo ainda? E se a morte te surpreender hoje? Em que estado a tua alma iria se apresentar a Deus? E o juízo? E o inferno? E a eternidade?

Vamos! É tempo de arrumar os negócios e sobretudo o grande negócio da salvação! Não se brinca com Deus, com a alma e a eternidade.

Salva tua alma! Olhemos as coisas do mundo tais como são na realidade: puro nada, vaidade e loucura! Haja paz em nossa alma. Pensemos um pouco no que é eterno. Dizia Santa Teresa: “Nada te perturbe, nada te assuste, tudo passa, Deus não muda, quando se tem Deus nada falta, só Deus basta”.

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Estaremos preparados quando a morte vier?

Nossa vida não tem sentido em si mesma. Vivemos para preparar um encontro num momento decisivo. O porquê de nossa existência decide-se no último instante, quando nos encontraremos com Nosso Senhor. É algo muito sério e importante. Ora, do que é feito o nosso dia? De tempo. São ao todo 24 horas. Cada hora tem 60 minutos, cada minuto tem 60 segundos… Enquanto estamos aqui, os segundos vão passando. Pode até ser que os segundos de nossa vida sejam quantitativamente idênticos (o segundo que está acontecendo agora é igual ao que aconteceu antes e ao que virá depois), mas qualitativamente não o são. 

De fato, há segundos decisivos, tempos na vida em que se põe em jogo uma decisão definitiva. É a hora de todas as horas — a hora da morte. E quando será a nossa morte? Em um segundo! A morte não dura quase tempo algum. Acontece numa fração de segundos. Morrer, afinal, é ir do estar ao não estar vivo, sem meio termo. “Ah, fulano está quase morrendo”, mas ainda está vivo; “se você tivesse vindo antes, tê-lo-ia visto com vida”, mas  morreu! No fundo, não há um “quase morrer” nem um “acabar de morrer”, só o estar vivo e o estar morto, e é da fração de segundos que separa um estado do outro que depende nossa eternidade. Mas o que significa “eternidade”? Quer dizer para sempre, é um nunca mais acabar. (Santa Teresa d’Ávila, quando criança, gostava de repetir com o irmãozinho Rodrigo que tanto a salvação quanto a condenação são para sempre: ¡Siempre, siempre, siempre!) Nosso destino eterno depende de um único instante. Como estaremos na hora da morte? Em que condição traremos a alma no momento do encontro? Se morrermos em graça, estaremos salvos para sempre; se em pecado, condenados também para sempre… 

Quem nunca passou por ao menos um ensaio de morte, por algum risco ou perigo grave, por algum acidente do qual escapou por um fio? Eu já passei por vários. Quando ainda era seminarista, estava um dia conduzindo pela estrada. Era de noite, e minha velocidade era bastante considerável. À minha frente ia um caminhão sem lanternas a “incríveis” 30 km/h… Assim que o vi, freei rapidamente e, graças a Deus e ao meu anjo da guarda, estou hoje aqui fazendo homilias, embora pudesse ter morrido naquela noite, sem nunca ser ordenado padre. Outra história. Durante o meu primeiro ano de filosofia, vim a Cuiabá comemorar os 25 anos de ordenação (não me lembro se episcopal ou presbiteral) de D. Bonifácio. Na volta, meu ônibus capotou. Também ali poderia ter-se encerrado tudo, e eu não teria concluído sequer os estudos. A pergunta básica e fundamental é: se em um daqueles momentos eu tivesse morrido, estaria preparado? Estaria pronto para me apresentar diante de Deus? Quando entrei naquele ônibus de Cuiabá para Campo Grande, não me passava pela cabeça que aquela pudesse ser minha última viagem. Quando peguei o volante naquela noite, não pensava que aquele pudesse ser meu último carro. Se eu não estivesse em estado de graça, e a morte ali me assaltasse como um ladrão, haveria um padre mais no inferno, condenado para sempre! 

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Quantas vezes Deus nos permite experimentar que a morte vem frequentemente sem aviso prévio, como um ladrão! Por isso diz Jesus: Vigiai! Precisamos, sim, estar prontos porque tudo depende daquele último momento, o momento da morte, o momento da prestação de contas. Quem disse que teremos tempo de nos arrepender? Sabemos às vezes estar em pecado, mas nos iludimos pensando: “Não, depois eu me confesso”. Ora, quem disse que teremos tempo de nos confessar, ou mesmo de fazer um ato de contrição? Ouçamos o que Nosso Senhor nos está dizendo hoje: Vigiai! Não sabemos nem o dia nem a hora. Se o dono da casa soubesse quando viria o ladrão, vigiaria para que sua casa não fosse arrombada. Estejamos preparados, irmãos. Cristo é amor, misericórdia e compaixão. Deus Filho se fez homem para nos alertar. Que grande caridade para conosco! Deus não faz “terrorismo espiritual”, mas nos chama a atenção para o que realmente importa: Vigiai! Não nos revoltemos nem fiquemos indignados com o Senhor; pelo contrário, mudemos o quanto antes de vida e nos arrependamos enquanto ainda é possível. Chegará o momento em que cessará todo o tempo, e não teremos nem sequer um momento para nos mudar. Mudemos já, antes de o tempo mudar-se em eternidade.

II. Comentário exegético

O ladrão inesperado (cf. Lc 12,39s). — Se o pai de família soubesse a que hora (gr. ποίᾳ φυλακῇ = em que guarda, i.e. em qual das quatro vigílias da noite [1]) havia de vir o ladrão, vigiaria, sem dúvida, e não deixaria minar a sua casa. Alguns vertem do grego: “Se tivesse sabido… teria vigiado… nem teria deixado” [2]; parece mais adequada, no entanto, a versão da Vulgata por causa dos verbos ᾔδει, ἔρχεται, que designam antes um caso hipotético que um fato pretérito. — Minar: alusão às casas orientais que, fabricadas muitas vezes com barro, podiam ser facilmente terebradas com um punhal ou qualquer outro instrumento.

aplicação da imagem à espera pela vinda de Cristo faz-se sem nenhuma dificuldade. Cristo (melhor, o dia do Senhor, i.e. o dia do juízo) virá ocultamente e sem aviso, trazendo para os pecadores a justa retribuição. Cumpre pois vigiar, para que tal dia não nos encontre despreparados (cf. 1Ts 5,2; 2Pd 3,8ss; Ap 16,15). — Muitos Santos Padres e não poucos autores recentes interpretam a parábola em referência à morte de cada homem, sobretudo porque a passagem paralela em Lc. encontra-se num contexto não escatológico. Embora a última vinda de Cristo demore muito tempo, os verdadeiros discípulos de Jesus devem estar sempre preparados, como se ele os fosse assaltar a qualquer instante (cf. e.g. São João Crisóstomo, hom. lxxvii in Matth. 2,3: M 58,705; São Gregório Magno, hom. xiii 6: M 76,1127).

O servo fiel e o infiel (cf. Lc 12,41-48). — O texto é o mesmo no I e III evangelhos (de Lc. são próprios os vv. 41.47s), mas são diversas as circunstâncias de tempo e lugar. Se se trata da mesma instrução, é preferível seguir a ordem de Lc., mais fiel à cronologia e à indicação dos lugares.

aImagem. — As famílias ricas contavam com um grande número de servos, os quais recebiam como certa remuneração uma quantidade determinada de alimento (σιτομέτριον = porção racionada de grãos, cf. Lc 12,42). Estavam sob os cuidados de um οἰκονόμος, ou administrador, ele mesmo um servo, o mais grato e próximo ao senhor, a quem competia vigiar os demais e prover às necessidades de cada um. Se, na ausência do dono, o despenseiro cumprisse fielmente o seu dever, era constituído sobre a família, i.e. tornava-se responsável pelos bens de toda a casa, o que era a maior recompensa que podia receber um servo; se, porém, maltratasse os companheiros e se aproveitasse da ausência do senhor para entregar-se ao ócio e a divertimentos, o patrão poderia voltar de repente, cortá-lo em dois (i.e. supliciá-lo, segundo o costume dos déspotas orientais) e pôr a sua parte com (i.e. dar-lhe a mesma sorte que têm) os hipócritas; ali haverá pranto e ranger de dentes [3]. Estas últimas palavras referem-se mais à doutrina espiritual do que à imagem, como é evidente. — Família (gr. οἰκετεία) = servos domésticos, famulício etc. (cf. Mt 24,49: σύνδουλοι = conservos).

bDoutrina espiritual. — A parábola fala especialmente dos Apóstolos e demais ministros do Evangelho (cf. Lc 12,41; 1Cor 4,1), mas não exclui outras classes de fiéis (cf. 1Pd 1,10). — Todo o que for constituído sobre a família de Cristo e cumprir fiel e prudentemente [4] o seu dever há de estar sempre alerta, como se a qualquer hora o Senhor fosse voltar para lhe pedir contas. Ao que Ele encontrar procedendo assim o advento do Filho de Homem (quer no juízo particular, quer no universal) constitui-lo-á administrador de tudo quanto possui, i.e. no tempo da parusia lhe retribuirá generosamente, ou o cumulará após a morte de honra e glória na felicidade eterna.

Àquele, porém, que tiver procurado somente os próprios interesses nem for achado digno da função recebida dividi-lo-á (gr. διχοτομήσει = cindirá, cortará em partes), i.e. o separará “do consórcio dos santos” (São Jerônimo), ou o punirá severamente, e porá a sua parte (sorte, herança etc.) entre os hipócritas e pérfidos, i.e. entre os infiéis (Lc.), o que equivale a dizer: “dar-lhe-á o mesmo fim que têm os ímpios”, sobre os quais paira a condenação à geena, onde haverá choro etc.

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