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Cardeal Müller: Restringir sacramentos por medo de covid-19 é pecado grave

O cardeal Gerhard Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, chama as restrições aos sacramentos relacionadas à covid-19 de “pecado grave”. Em entrevista ao jornal Natitonal Catholic Register, o cardeal alemão também alertou contra bispos e padres que “se oferecem como cortesãos aos governantes deste mundo e se fazem seus propagandistas”.

Alguns políticos, a grande mídia e a Big Tech “exploraram implacavelmente” o covid-19 para promover o “pensamento totalitário” que levou até mesmo à divisão dentro das famílias, disse o cardeal Gerhard Müller. Para Müller, a reação de alguns bispos e padres para fechar igrejas ou negar os sacramentos é um “pecado grave” que vai contra sua “autoridade dada por Deus.”

Uma pequena minoria de dioceses na Alemanha tem restringido o acesso às missas a quem tenha tomado vacina ou tenha tido covid-19 recentemente. Essa decisão, assim como o fechamento de algumas igrejas, é “uma prova chocante de quão longe a secularização e descristianização do pensamento já atingiu os pastores do rebanho de Cristo”, disse o cardeal alemão.

A Igreja Católica e os governos, acrescentou ele, devem “trabalhar em prol da coesão social” e evitar a retórica divisionista que rotula alguns como “teóricos da conspiração” ou “pecadores contra a caridade”. Ele também disse que os bispos e padres “não devem se oferecer como cortesãos aos governantes deste mundo e se fazer seus propagandistas”.

Os comentários do cardeal ocorrem no momento em que vários países impõem mandatos estritos de vacinação. O governo austríaco planeja multar quem não tomar vacinados em US$ 4 mil a partir de fevereiro e pode aumentar a quantia para quase US$ 10 mil. As autoridades gregas aplicam multas mensais de 100 euros a pessoas com mais de 60 anos até que tomem a vacina. Nos EUA, nesta semana, a justiça bloqueou tentativas do governo Biden de obrigar trabalhadores americanos a se vacinar.

Eminência, qual é a sua reação a esses mandatos cada vez mais severos, principalmente na Europa e na Austrália?

Cardeal Gerhard Müller: Apenas em emergências extremas uma autoridade legítima do Estado pode impor uma exigência geral de vacinação aos cidadãos.

Em tais casos, o bem comum deve ser o fator determinante, que, em certas circunstâncias, pode restringir, senão abolir, a liberdade do indivíduo. A produção da vacina deve ser eticamente correta, e as consequências médicas, psicológicas, sociais e efeitos colaterais devem ser mensuráveis ​​e permanecer proporcionais aos benefícios esperados.

Infelizmente, muitos governos perderam a confiança do público por meio de medidas caóticas que têm uma lógica contraditória.

Em alguns casos, as regulamentações foram comprometidas e contaminadas pelos interesses financeiros e políticos de lobbies ideológicos e gigantes farmacêuticos. Em vez de unir a sociedade na luta contra a pandemia, os poderes que estão na política, a grande mídia e a Big Tech exploraram implacavelmente a situação para promover a agenda da “Grande Reinicialização”, ou seja, o pensamento totalitário. Atpe dentro das famílias as pessoas estão umas contra as outras.

Mas em uma crise, os líderes da Igreja e do Estado devem trabalhar em prol da coesão e evitar discriminar os dissidentes, chamando-os de “teóricos da conspiração”, “pecadores contra a caridade”. Caso contrário, são culpados da conduta indevida muito divisiva, da qual acusam publicamente os outros.

Por que o senhor acha que a Santa Sé e os bispos, quase sem exceção, tendem a silenciar publicamente sobre essas políticas discriminatórias e, alguns diriam, totalitárias, especialmente quando a eficácia das vacinas na prevenção da transmissão permanece discutível (o número de casos de COVID está aumentando na Áustria , Alemanha e outros países, apesar da vacinação generalizada) e quando a Congregação para a Doutrina da Fé decidiu contra a vacinação obrigatória em dezembro de 2020?

Cardeal Müller: Bispos e sacerdotes são ministros da reconciliação das pessoas com Deus (2 Coríntios 5:19) e da reconciliação das pessoas entre si (Lumen Gentium 1; 21; 28). Sua missão e autoridade vêm de Jesus Cristo, e eles são efetivados no Espírito Santo.

Os servos de Cristo no ministério apostólico não devem se oferecer como cortesãos aos governantes deste mundo e fazer-se seus propagandistas. Segundo nossa fé católica, o papa, além de ser a primeira testemunha da revelação sobrenatural de Deus em Jesus Cristo, é também o guardião supremo da lei moral natural. O magistério da Igreja tem, portanto, o direito e a obrigação de apontar os limites do poder temporal, que termina na liberdade de fé e de consciência.

Qual é a sua opinião sobre algumas dioceses, como Berlim, que está restringindo a missa apenas aos vacinados ou recentemente recuperados do COVID?

Cardeal Müller: É, acima de tudo, contrário à lei divina se o acesso aos meios de graça da Igreja, ou seja, os sacramentos de Cristo, é prejudicado ou mesmo proibido pelas autoridades estatais. O fato de os bispos terem fechado suas igrejas ou negado os sacramentos a pessoas que buscam ajuda é um grave pecado contra a autoridade concedida por Deus. Essa é uma prova chocante de quão longe a secularização e descristianização do pensamento já atingiu os pastores do rebanho de Cristo.

Nesta situação, nós bispos devemos lembrar o exemplo de São Carlos Borromeu e, acima de tudo, ser guiados pela palavra de Jesus: “Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (João 10:11).

Pois os mercenários, como senhores, dispõem da graça de Deus como bem entendem. Os bispos, entretanto, como sucessores dos apóstolos, não são governantes segundo os caminhos do mundo, mas ministros da Palavra e ministros da graça de Cristo. A observância das regras razoáveis ​​para prevenir a transmissão da doença é um pouco diferente, mas isso não pode ser usado para justificar a recusa dos sacramentos por princípio, pois a graça da vida eterna deve ter precedência sobre os bens temporais.

Como o senhor acha que a Igreja deveria responder; o que seus líderes deveriam estar dizendo?

Cardeal Müller: Em tempos de crise, os locais de culto e os corações das pessoas devem estar bem abertos para que as pessoas possam buscar refúgio em Deus, de quem vem toda a ajuda. Todas as vacinas têm um limite temporal. Nenhum medicamento ou invenção técnica pode nos salvar da morte temporal e eterna. O Pão que Jesus dá é a cura para a morte eterna e – sem prazo de validade – o alimento para a vida eterna. “Quem comer este pão viverá para sempre” (João 6:51). E é por isso que, no início do século II, o bispo mártir Inácio de Antioquia, em sua “Carta à Igreja de Éfeso” (20: 2), pôde chamar a Eucaristia de “remédio da imortalidade”.

A tarefa dos bispos é administrar a Eucaristia aos fiéis, não mantê-los afastados dela. A devoção pessoal em casa e a co-celebração virtual nas telas não podem substituir a presença real e física na assembléia dos fiéis, pois somos seres corporais e sociais. Portanto, a graça e a verdade de Deus nos são comunicadas por meio da Encarnação de seu Filho e são compartilhadas conosco na comunidade da Igreja. É o seu corpo. Na Eucaristia, Cristo está escondido, mas realmente presente com sua divindade e sua humanidade – em carne e osso.

Via ACI Digital