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Santo do Dia

Santa Brígida da Suécia, padroeira da Europa – 23 de julho

SANTO DO DIA – 23 DE JULHO – SANTA BRÍGIDA DA SUÉCIA
Viúva, religiosa e fundadora (1303-1373)

Mãe de família e depois religiosa, “conhecida em toda a Igreja de Deus em virtude das inúmeras revelações divinas com que foi agraciada”, Santa Brígida é modelo de virtudes para todo o povo de Deus, mas especialmente para as mulheres. Conheça brevemente a sua vida.

Santa Brígida, conhecida em toda a Igreja de Deus em virtude das inúmeras revelações divinas com que foi agraciada, nasceu na Suécia, de pais nobres e piedosos. Pouco antes do nascimento de Brígida, a mãe dela correu um grande perigo de naufrágio, mas foi salva milagrosamente. Na noite seguinte, apareceu-lhe um velho venerável, que lhe disse: “Deus salvou tua vida por causa da criança que darás à luz. Educa-a muito bem, pois ela será muito santa.” A piedosa mãe cumpriu fielmente esta ordem enquanto viveu. 

Depois de sua morte, Brígida, então com apenas sete anos de idade, foi entregue aos cuidados de uma tia bastante devota, que a educou com muita piedade. Aos dez anos de idade, ouviu um sermão sobre a amarga Paixão e Morte de nosso Senhor, o qual deixou uma profunda impressão em seu jovem e terno coração. Na noite seguinte, Cristo apareceu-lhe, pendente da Cruz, enquanto jorravam de suas chagas rios de sangue. Brígida, profundamente comovida, exclamou: “Ó Senhor, quem vos maltratou assim?” “Aqueles que desprezam meu amor”, respondeu Cristo, “isto é, aqueles que transgridem as minhas leis e são ingratos ao amor incomensurável que tenho por eles”.

Pintura de Santa Brígida em igreja paroquial a ela dedicada em Gnadenberg, na Alemanha.

A visão ficou na memória de Brígida e levou-a, desde então, a manifestar a mais terna devoção à Paixão e Morte do Salvador, na qual jamais conseguiria pensar sem derramar lágrimas. A esta visão seguiram-se muitas outras, especialmente durante suas orações, tão amadas pela santa que, aparentemente, nenhuma outra ocupação poderia dar-lhe alegria ou contentamento. Muitas vezes, levantava-se em silêncio durante a noite e passava horas em piedosa meditação. Também usava muitos meios para mortificar seu delicado corpo, de modo a assemelhar-se, enquanto suportava silenciosamente a dor, àquele que havia sofrido infinitamente mais por ela. 

Por obediência a seu pai, aos treze anos de idade deu a mão a Ulfo, príncipe da Nerícia, cujo coração conquistou tão plenamente com sua amabilidade e docilidade no trato que, em pouco tempo, afastou-o do jogo, do luxo imoderado no vestuário e de outros defeitos semelhantes, induzindo-o a levar uma vida agradável a Deus, com assiduidade na oração e na confissão. Ela vivia com ele num amor e harmonia inabaláveis. Era também muito solícita para com os seus empregados domésticos e não tolerava nada que pudesse ofender o Todo-Poderoso ou impedir que a bênção dele recaísse sobre a sua casa. 

Foi mãe de quatro filhos e de outras tantas filhas. Dois de seus filhos morreram na infância, dois enquanto viajavam pela Terra Santa. Duas de suas filhas viveram na corte e tornaram-se modelos de todas as virtudes. A terceira tornou-se religiosa e levou uma vida santa, e a quarta, Catarina, foi contada entre os santos, uma prova do cuidado piedoso com que Santa Brígida educou os filhos. Foi ela quem os instruiu na religião e na piedade, e os levou, desde a mais tenra idade, a praticar obras de caridade e mortificação, sendo para eles um exemplo em todas as virtudes. 

Com o consentimento de Ulfo, construiu um hospital, onde diariamente, em determinados horários, servia como criada aos pobres e doentes que lá se encontravam. Lavava-lhes frequentemente os pés, beijando-os com toda a reverência.

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“Santa Brígida visitando os pobres e os doentes em Roma”, por Therese Jansson.

Seu marido adoeceu gravemente quando regressava de Compostela, aonde fora com Santa Brígida para visitar o túmulo de São Tiago Apóstolo. Mas São Dionísio, que apareceu a Brígida, anunciou-lhe, para além de outros acontecimentos futuros, que Ulfo se recuperaria em breve. Pouco tempo depois, ela viu cumprir-se essa profecia e teve também a alegria de perceber que Ulfo estava descontente com o mundo e desejava terminar a vida em recolhimento. Com a permissão de sua piedosa esposa, foi para um mosteiro cisterciense, onde viveu santamente os últimos anos de vida.

Brígida viveu mais trinta anos depois de o marido ter entrado para o mosteiro e, liberta de muitas preocupações e ansiedades, dedicou-se com grande zelo a uma vida perfeita e penitente. Distribuiu aos filhos seus bens temporais, vestiu-se com um manto penitencial e praticou incansavelmente atos de devoção, caridade e penitência. Jejuava quatro vezes por semana e, às sexta-feiras, só ingeria água e pão. Dedicava a maior parte da noite à oração, passando horas inteiras prostrada diante do Crucifixo ou do Santíssimo Sacramento. Todas as sextas-feiras deixava cair algumas gotas de cera fervente numa ferida a fim de recordar, pela dor que isso lhe causava, o sofrimento de nosso Senhor. Alimentava diariamente doze pobres e servia-os à mesa. 

Fundou um convento para sessenta religiosas e deu-lhes uma regra que recebera do próprio Cristo. Essa regra foi depois adotada por muitas casas de religiosos. Daí nasceu a célebre Ordem Brigitina. A própria Santa Brígida entrou num convento fundado por ela, e foi para todos uma luz radiante na prática da virtude. 

Depois de ter vivido lá por dois anos, recebeu numa visão a ordem de realizar uma peregrinação a Roma com sua filha Catarina, e de lá para a Terra Santa. Ao regressar, foi acometida de uma febre maligna, que se agravou bastante quando ela chegou a Roma e durou um ano inteiro. Com a lembrança da amarga Paixão de nosso Salvador, as grandes dores que sofria se lhe tornavam mais fáceis e, por amor a Ele, estava disposta a suportar muito mais. Seu maior consolo foi uma visão em que Deus lhe apareceu e garantiu-lhe a salvação. Também lhe foi divinamente revelada a hora de sua morte. Preparou-se cuidadosamente para o seu fim e, depois de receber os santos sacramentos, deu o último suspiro nos braços de sua santa filha. Repleta de méritos e virtudes, foi receber sua recompensa no Céu, aos 71 anos de idade, no ano de 1373. Antes e depois da sua morte, Deus fez muitos e grandes milagres por sua intercessão.

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“Santa Brígida em seu leito de morte”, por Philippe de Champaigne.

Considerações práticas

I. Cristo apareceu a Santa Brígida, com o corpo todo ferido, e disse que aqueles que tinham desprezado seu amor e sido ingratos com seus favores, haviam-no maltratado daquela forma. Não seria você também um daqueles que desprezam o amor do Salvador e se mostram ingratos para com Ele? Não seria, porventura, um daqueles que, segundo as palavras de São Paulo, o crucificam de novo? “Crucificais novamente o Senhor todas as vezes que vos tornais culpados de um pecado mortal”, diz o Cardeal Hugo de Saint-Cher. E quantas vezes isso aconteceu? E que razões você teve para fazê-lo? 

O que você responderia a Cristo, se Ele dirigisse a você as seguintes palavras, postas por São Bernardo na boca do Salvador: “Não estou ainda suficientemente ferido por ti? Não sofri ainda o suficiente por causa de tuas faltas? Por que acrescentas ainda novas dores às antigas? As feridas dos teus pecados são muito mais dolorosas para mim do que as feridas do meu corpo.” Que responderia você, se Cristo assim lhe falasse? Prostre-se perante seu Salvador crucificado, peça-lhe humildemente perdão e prometa-lhe mostrar-se grato no futuro e não mais ofendê-lo. 

Sempre que tiver a tentação de pecar, lembre-se de seu Senhor crucificado, e dirija-se a si mesmo com as palavras de São Bernardo: “O meu Deus está suspenso na Cruz, e hei de submeter-me à luxúria?” Devo pecar? Devo, por um ganho miserável, por um breve prazer sensual, ofender o meu Deus?  “Como posso eu cometer esta maldade, e pecar contra o meu Deus?”, disse o casto José, quando tentado a pecar (Gn 39, 9). Com tais palavras, queria dizer que lhe era impossível ofender um Deus tão grandioso e tão bom. “Como posso pecar contra o meu Deus?” Fale assim consigo mesmo, quando Satanás ou os homens o tentarem a pecar. Como me atrevo a fazer isso? Como posso ofender assim o meu bom Deus? Como ofender assim o meu bondoso Redentor, e abrir novamente todas as suas chagas? Porém, seus atos devem corresponder a tais palavras e, assim como José preferiu atrair sobre si a ira de sua senhora e tudo o que poderia seguir-se a isso, a ofender a Deus, da mesma forma você deve agir.

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II. Com muita delicadeza, Santa Brígida corrigiu vários defeitos do marido, como o jogo e o amor desmedido ao vestuário. Ensinou os filhos a rezar, a praticar obras de misericórdia e mortificação. Oxalá todas as mulheres agissem assim com seus maridos e todas as mães adotassem o mesmo plano na educação de seus filhos! Como seriam grandes os seus méritos na terra e como seria inexprimível a alegria de encontrar os filhos numa eternidade feliz! Mas, ao contrário, como serão pesadas as contas que essas mulheres terão de prestar diante de Deus, e como serão excruciantes as suas dores no Inferno, se tiverem incitado seus maridos ao orgulho, ao ódio e à inimizade, à opressão e à perseguição do próximo, a toda sorte de fraudes, injustiças e outros vícios! 

E terrível será também o castigo das mães que não cuidam devidamente da instrução dos filhos, não corrigem seus erros, não os conduzem, por preceito e exemplo, à piedade, mas às vaidades frívolas, ao amor do vestuário e do mundo e a toda espécie de divertimentos pecaminosos.

O que foi dito aqui também se aplica aos maridos e pais. Os esposos devem amar-se mutuamente; e o que é mais adverso ao amor cristão do que um tornar-se para o outro ocasião de pecado, e assim ferir aquele que deveria estar protegido de todo o mal? Ambos os pais são obrigados a guiar os filhos, pela palavra e pelo exemplo, no caminho do Céu, e a ensinar-lhes as lições que Deus ministra tão enfaticamente pelo salmista: “Para que ponham em Deus a sua esperança, e não se esqueçam das obras de Deus” (Sl 77, 7). Se negligenciarem isso, e porventura fizerem o contrário, acontecerá com eles o que diz Orígenes: “Os pais terão de prestar contas dos pecados dos filhos, se não os tiverem instruído bem e castigado devidamente, pois são eles os culpados da perdição eterna dos filhos, e assim condenam a si mesmos por toda a eternidade.”

Referências

  • Extraído e traduzido de Lives of the saints: compiled from authentic sources with a practical instruction on the life of each saint, for every day in the year, v. 2. New York: P. O’Shea, 1876, pp. 439-442.

CONHEÇA MAIS SOBRE SANTA BRÍGIDA DA SUÉCIA

Brígida, ou Brigite, nasceu princesa, em 1303, no castelo de Finstad, na Suécia. Descendia de uma casa real muito pia, que forneceu à Igreja muitos santos e que se dedicava a construir mosteiros, igrejas e hospitais com a própria fortuna. Além de manter muitas obras de caridade para a população pobre, Brígida, desde a infância, tinha o dom das revelações divinas, todas anotadas por ela no seu idioma sueco. Depois, as descrições foram traduzidas para o latim e somaram oito grandes volumes, que ainda hoje são fonte de consulta para historiadores, teólogos e fiéis cristãos.

Aos dezoito anos, ela se casou com o nobre Ulf Gudmarsson, um homem cristão e muito piedoso. O casal teve oito filhos, dentre os quais a filha venerada como Santa Catarina da Suécia. Era com rigor que eles cuidavam da educação religiosa e acadêmica dos filhos, sempre no caminho para a santificação em Cristo. Durante um longo período, Brígida foi dama de companhia da rainha Bianca, de Namur, por isso frequentava sempre as cortes luxuosas. Mas não se corrompeu neste ambiente de riquezas frívolas, ao contrário, manteve-se fiel aos ensinamentos cristãos, perseverando seu espírito na dignidade e na caridade da fé.

Após a morte de um dos seus filhos, o casal resolveu fazer uma peregrinação ao santuário de Santiago de Compostela, na Espanha. No retorno, Ulf caiu gravemente enfermo. Brígida, em sonho, teve uma revelação de são Dionísio, que lhe disse que o marido não morreria. De fato ele ficou curado, mas logo em seguida ingressou no mosteiro de Alvastra, onde vivia um dos seus filhos, e lá morreu, em 1344.

Viúva, Brígida decidiu retirar-se definitivamente para a vida monástica, para realizar um velho projeto, a fundação de um mosteiro duplo, de homens e mulheres, que deu origem à Ordem do Santo Salvador, sob as regras de santo Agostinho, passando, então, a viver nele. Quando obteve aprovação canônica, a fundadora transferiu-se para Roma.

Ali viveu por 24 anos, trabalhando pela reforma dos costumes e a volta do papa de Avignon. Com o apoio do rei da Suécia, construiu e instaurou setenta e oito mosteiros por toda a Europa. Ela morreu em 23 de julho de 1373, durante uma romaria à Terra Santa.

A Ordem fundada por ela passou a ser dirigida por sua filha, Catarina da Suécia, alcançando notoriedade pelos anos futuros. Canonizada em 1391, apenas dezoito anos após sua morte, Santa Brígida já tinha um culto muito vigoroso em todo o mundo cristão da Europa, sendo celebrada no dia de sua morte. O local onde residia em Roma foi transformado em um belíssima igreja dedicada a ela, na Praça Farnese.

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Conheça mais sobre Santa Brígida

O que o Salvador disse a Nicodemos: O espírito sopra onde quer, o mundo cristão o viu, pelos fins do século XIV em Santa Brígida, da Suécia e Santa Catarina de Siena. Aquela nasceu nos confins extremos da Suécia, na província de Upland, no domínio de Finstad, não longe de Upsala, então capital de todo o reino. Nasceu no começo do século XIV, no ano de 1302. Seu nome é propriamente Birgida, transforma em Brígida pelo uso comum. Sua família era mas mais ilustres; tinha parentesco próximo com a família real e descendia dos antigos reis do país.

Nela a piedade era hereditária, como a nobreza. O avô, o bisavô e o trisavô do pai de Brígida, por devoção aos mistérios da Paixão do Salvador, fizeram uma peregrinação a Jerusalém e aos outros santos lugares, que Jesus Cristo ilustrou com sua presença. O príncipe Birger, seu pai, juiz ou governador da província de Upland, era homem cheio de piedade e de virtude. Fundou grande número de igrejas e de mosteiros; fez peregrinações a Roma, a Jerusalém e a outros santos lugares, a exemplo de Pedro, seu pai e de seus antepassados. Jejuava, confessava-se e comungava todas as sextas-feiras, a fim de conseguir a graça de sofrer pacientemente as cruzes que Deus lhe mandava até a sexta-feira seguinte. A princesa, sua esposa, chamada Indeburga, filha de Ligride, não tinha menos piedade. O túmulo dos dois esposos existe ainda na catedral de Upsala.

Quanto à Santa Brígida, da qual temos uma vida contemporânea escrita por Birger, arcebispo de Upsala, seu nascimento foi ilustrado por diversos prodígios. Sua mãe, a princesa Ingenurga, escondia terna piedade, sob hábitos, convenientes à alta linhagem.

Uma religiosa, vendo-a assim vestida, tachou-a de orgulhosa, em seu coração. Na noite seguinte, durante o sono, um personagem venerável apareceu-lhe, dizendo: Por que pensaste mal de minha serva, tratando-a de orgulhosa, o que, entretanto, não é verdade? Dela farei nascer uma filha, com a qual farei aliança, conferindo-lhe uma graça tão grande, que todas as nações não serão suficientes para a admirar. A essa circunstância maravilhosa, o arcebispo de Upsala, bem como os outros biógrafos acrescentam uma segunda. A princesa Ingeburga, estando grávida de Brígida, naufragou nas costas da Suécia e foi salva do perigo pelo irmão do rei. Na noite seguinte, um personagem vestido, com uma roupa brilhante apareceu a Ingeburga, e lhe disse: Foi em consideração à criança que trazeis, que fostes salva da morte; tende cuidado em criar no amor de Deus o que Deus vos deu especialmente. Enfim, no nascimento de Brígida, o vigário da paróquia, homem venerável por sua idade e virtude, passava as noites em oração numa igreja vizinha, quando viu uma nuvem luminosa e no meio da nuvem a Santa Virgem sentada, tendo na mão um livro e dizendo-lhe: Nasceu em Birger uma menina cuja voz admirável será ouvida por todo o mundo. Eis o que refere o arcebispo de Upsala, bem como os outros biógrafos contemporâneos de Santa Brígida.

Entretanto, a maravilhosa criança ficou muda durante os três primeiros anos. No fim desse tempo, começou, não a balbuciar, como as crianças, mas a falar perfeitamente como as pessoas já adultas. Viu-se aí um efeito da sabedoria divina que abre a boca dos mudos e torna eloqüentes as línguas das crianças, a fim de tirar da boca das crianças, e daqueles que ainda mama, um louvor perfeito. Esperando, sua piedosa mãe, cheia de boas obras e esmolas, como outro Tabit, caiu gravemente doente. Soube e predisse a morte vários dias antes. Vendo a aflição do esposo e dos outros, disse-lhes com muita coragem: Por que afligir-vos. É muito ter vivivo e ter vivido bastante; ao contrário, devemos alegrar-nos de que sou chamada a um Senhor mais poderosos, Tendo-se, então, despedido de todos, adormeceu no Senhor. A jovem Brígida dói confiada pelo pai e uma tia materna tão prudente quão piedosa.

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Na idade de sete anos, a criança viu diante do leito um altar, e sobre ele uma senhora assentada com vestes resplandecentes, tendo na mão uma coroa e que lhe disse: Vem, Brígida. A menina levantou-se logo e correu para o altar. A senhora perguntou-lhe: Queres esta coroa? A criança disse que sim e a senhora colocou-a sobre a cabeça e Brígida sentiu-a como um círculo. Voltando ao leito, a visão desapareceu. Ela jamais, porém, a esqueceu. O que não é de admirar, observa o arcebispo de Upsala, pois era sinal de que seria um altar de holocausto, onde o fogo da caridade divina arderia sempre e Jesus Cristo, seu esposo lhe conservaria uma coroa imortal e sem mancha nos céus.

Na idade de dez anos, era como um lírio muito puro que se erguia da terra ao céu. Ostentava o modelo de todas as virtudes, a sobriedade, com a modéstia, a simplicidade com a ponderação, a humildade com a obediência, com a beleza na consciência, a hilaridade na paciência com uma caridade infatigável. Aparecia como esposa de Deus, como uma pérola brilhante, cheia de graça a todos os olhos e amada por todos. Devia, porém, subir ainda mais alto.

Um dia, ouviu um sermão sobre a Paixão de Jesus Cristo; ficou tão emocionada, que escreveu aquela Paixão nas tábuas do coração. Na noite seguinte, viu Jesus Cristo, sendo crucificado, o qual lhe disse: Eis como fui tratado. Ela, pensando que era coisa recente, respondeu-lhe: Senhor, quem vos fez isso? – Aqueles que me desprezam e são insensíveis a meu amor, respondeu Jesus Cristo. Desde esse momento, refletindo, ela sentia-se tão sensível à paixão do Salvador, que não podia lembrá-la sem derramar torrentes de lágrimas. Uma noite, quando as jovens companheiras dormiam, saiu do leito e prostrou-se em adoração e em lágrimas diante do crucifixo do quarto. Naquele mesmo momento lá entrou secretamente a tia, que, muito admirada de a ver naquela posição, julgou ser uma brincadeira da sobrinha e mandou buscar umas varas para a corrigir e tornar mais discreta. Mas, com sua grande surpresa, as varas quebraram-se-lhe na mão. Disse então: Que fizestes, Brígida? Alguma mulher vos ensinou essas orações enganadoras? A jovem virgem respondeu chorando: Não, senhora, mas eu me levantei do leito para louvar àquele que sempre me assiste. – E quem é Ele? – É o Crucificado, que vi ultimamente. – Desde aquele dia, a tia começou a ter por ela mais afeto e veneração, compreendendo que semelhantes disposições não vem dos homens, mas de Deus.

Outra vez, quando a jovem virgem brincava com as companheiras, o diabo apareceu-lhe sob forma horrível, tendo cem mãos e cem pés. De espanto, ela correu ao quarto, e recomendou-se humildemente ao Crucificado. O diabo lá apareceu, mas disse: Nada posso fazer, se o Crucificado não o permitir. A tia soube mais tarde o que havia acontecido e recomendou-lhe que guardasse silêncio, sobre o que tinha visto e pusesse a confiança em deus, amando a Jesus Cristo acima de todas as coisas, sabendo que a vida de nossa peregrinação não pode ser sem tentação, a fim de que cada qual aprenda a ser conhecer; aliás não se pode ser coroado, se não se tiver vencido, nem vencer sem combate, nem combater sem experimentar as tentações do inimigo.

Brígida desejara ter permanecido sempre virgem, mas na idade de treze anos, seu pai fê-la desposar Ulphon, príncipe ou governador de Nerícia, que tinha dezoito, A exemplo dos jovens Tobias e Sara, sua esposa, guardaram a continência, perto de dois anos, para obter de Deus a graça de usar santamente do matrimônio e ter filhos fiéis em o servir.

Tiveram oito, quatro meninos e quatro meninas.

A mãe, depois de ter vivido santamente na virgindade não viveu menos santamente no casamento. Regulou tão bem toda a vida, que jamais deixou motivo a alguma suspeita sinistra, nem a maledicência alguma. Para isso, não admitia nem criadas nem companheiras cuja reputação não fosse sem mancha, para que sua familiaridade não lhe atraísse alguma má fama.

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Sabendo que a ociosidade é mãe de todos os vícios, dedicava-se com suas domésticas a trabalhos para as igrejas e para os pobres, lia as vidas dos santos e a Bíblia, que tinha feito traduzir em língua gótica; ora, ia à igreja e ouvia com prazer o ofício divino. Com seu esposo, o príncipe Ulphon, confessava-se todas as sextas-feiras e comungava todos os domingos e festas. Como Judite tinha um oratório secreto, onde, de vez em quando, se recolhia na presença de Deus, examinava a consciência, chorava as faltas; onde, quando o marido estava ausente, passava as noites inteiras em oração, vigílias, jejuns e outras mortificações; sempre se abstinha de iguarias, as mais delicadas, mas secretamente, para não ser notada pelo marido ou por outros. Tinha a mais terna devoção pela Santa Virgem que, nos partos laboriosos, lhe concedia um fácil resultado, quando todos pensavam que ia perder a vida. Suas esmolas eram muito grandes. Tinha uma casa muito ampla para os pobres. Todos os dias, alimentava doze deles em casa; na quinta-feira, lavava-lhes e beijava-lhes humildemente os pés, em memória do que Nosso Senhor tinha feito a seus apóstolos. Restaurou grande número de hospitais no país natal e em suas terras; lá ia visitar os pobres e os enfermos, acompanhada pelas filhas, especialmente Santa Catarina. Lá a piedosa mãe medicava com as próprias mãos as chagas e as úlceras dos enfermos, dando-lhes esmolas e dirigindo-lhes palavras de consolo, mostrando aos filhos, com o exemplo, como deviam um dia servir também aos pobres e aos enfermos por amor de Deus. Depois do nascimento do oitavo filho, Ulphon e Brígida guardaram continência.

No ano de 1335, o rei Magno, da Suécia, desposou Branca, filha do conde Namur; queria que Brígida, sua parente, fosse governantes da jovem rainha, Brígida interessou-se vivamente pela salvação e pela prosperidade de uma e de outro, tanto mais que ambos eram jovens. Rogava por eles, dava-lhes bons conselhos, às vezes mesmo advertências, resultado de revelações sobrenaturais. A princípio muito eles aproveitaram. Mas ambos eram de caráter inconstante, e por outro lado, outros conselhos lhe foram sugeridos. Com o tempo, o mal venceu o bem; Brígida, anunciou calamidades: o rei ria-se e perguntava a Birger, filho da santa: Que foi que nossa prima, vossa mãe, sonhou esta noite a nosso respeito? Mas as predições de Brígida se realizaram. O reino de Magno, com o resultado do mau governo, encheu-se de perturbações e de revoluções; os estados insurgiram-se contra sua tirania; ele foi excomungado pelo papa por ter confiscado as rendas da Igreja; a rainha Branca pereceu miseravelmente em 1363; o rei, depois de ter perdido a coroa da Suécia, morreu acidentalmente, afogado, no ano de 1374.

Brígida deixou a corte muito cedo e Ulphon seguiu o exemplo da esposa. Pensavam somente em se santificar, bem como a família. Fizeram muitas peregrinações à Noruega, França, Espanha, Itália, Alemanha: na Noruega, visitaram, em Nidrósia ou Drontheim, capital do reino, o túmulo do rei e mártir Santo Olaus; na Espanha, São Tiago de Compostela. Embora tivessem numerosa equipagem, Brígida fazia uma parte do caminho a pé por espírito de piedade e de mortificação.

Depois de ter visitado muitos santuários, voltavam à pátria, quando o príncipe Ulphon caiu doente na cidade de Arras; mal tornou-se tão grave, que ele recebeu os últimos sacramentos das mãos do bispo, deixando Brígida em viva ansiedade. Ela invocou São Dionísio, apóstolo da França. O santo apareceu-lhe, predisse-lhe que Deus queria por meio dela tornar-se conhecido do mundo e que ela estava entregue à sua especial proteção e como prova disse, seu esposo não morreria daquela doença.

Alguns dias depois, ela teve uma revelação de como ele passaria a Roma e à santa cidade de Jerusalém, e enfim, sairia deste mundo. Deus realizou misericordiosamente tudo aquilo, diz o arcebispo de Upsala. O príncipe reconquistou a saúde, depois de uma doença muito longa; voltaram ambos com saúde à pátria. Renovaram o voto de conservar a continência e resolveram entrar cada qual num convento.

Tendo então regulado os negócios e disposto os bens, o príncipe Ulphon entrou no mosteiro de Alvastre, ordem dos cistercienses, fundado em 1150 por Suercher, rei da Suécia. Aí viveu alguns anos na prática de todas as virtudes, e morreu em 1344. O príncipe Ulphon de Nerícia é nomeado no menológio de Cister, a 12 de fevereiro.

Poucos dias depois da morte do esposo, Brígida dividiu os bens entre os filhos e os pobres, Renunciou à condição de princesa para se consagrar inteiramente à penitência. Usava apenas uma túnica de linho com exceção do véu, com que cobria a cabeça; usava um hábito grosseiro, que prendia com uma corda cheia de nós. As austeridades que praticava são incríveis; duplicava-as ainda, às sextas-feiras, e nesses dias passava somente a pão e água. Tendo feito construir o mosteiro de Watstein, na diocese de Lincopen na Suécia, lá colocou sessenta religiosas; instalou, num edifício separado do mosteiro, treze sacerdotes em honra os doze apóstolos e de São Paulo, quatro diáconos para representar os quatro doutores da Igreja e oito irmãos conversos; deu a todos as regras de Santo Agostinho, as quais acrescentou constituições particulares. Lemos, em alguns autores que o Salvador mesmo ditou essas regras, mas com ordem de as submeter ao exame do soberano Pontífice, visto que o Salvador veio a este mundo não para destruir a lei, mas para a aperfeiçoar.

Santa Brígida ficou assim dois anos na Suécia, perto do mosteiro de Alvastre, onde estava enterrado o esposo, como no novo mosteiro de Watstein. Sua vida pobre e penitente, depois de um estado de princesa, atraiu-lhe as zombarias do mundo, respondeu: Não foi por causa de vós que comecei; não será por causa de vós que terminarei. Resolvi, em meu coração, suportar as palavras. Rezai para que eu persevere.

Com suas vestes de pobre, não deixou de se apresentar ao rei da Suécia, para lhe anunciar que ele e seu reino seriam castigados, com grandes calamidades, se não se corrigissem de certos defeitos e desordens. Alguns dos grandes murmuravam e ter-lhe-iam mesmo provocado confusão, se não soubessem que ela era parente do rei. Pelo menos zombaram dela entre si mesmos, tratando-a de feiticeira, a tal ponto que os filhos queriam vingar-se disso; mas ela rogou-lhe que nada fizessem, dizendo: Deus é testemunha de que prefiro, por amor de Jesus Cristo, sofrer esses desprezos e essas zombarias a ter a coroa do rei sobre a minha cabeça.

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Se a santa viúva teve de sofrer da parte dos homens, Deus a consolou superabundantemente com revelações e comunicações sobrenaturais. Essas revelações foram examinadas por doutores católicos e aprovadas pela Santa Sé, neste sentido, que nada contém de contrário a fé, e que nelas se pode crer piamente.

Os principais objetos dessas revelações e contemplações de Santa Brígida são: a Paixão do Salvador e a Santa Virgem. Quanto à Paixão do Salvador, nada se vê aí, mais do que no Evangelho, a não ser certas circunstâncias de particulares muito naturais. Com relação à Virgem, diz-se expressamente que ela foi concebida sem pecado, e que subiu aos céus, em corpo e alma. Uma das particularidades mais tocantes é a Virgem mesma, narrando a Santa Brígida seu progresso no conhecimento de Deus e de sua lei. Desde a mais tenra idade, quando compreendi o que Deus era, sempre fui cuidadosa e temerosa de minha salvação e de meu procedimento. Mas, quando compreendi mais plenamente que o mesmo Deus era meu criador e juiz de todas as minhas ações amei-o intimamente, temi ofendê-lo mais que nunca, quer por obrar, quer por palavras. Depois, quando soube que tinha dado sua lei e seus mandamentos ao povo, e tinha feito com ele tantas maravilhas, resolvi firmemente em minha alma só amar a ele e nada mais do que ele, e as coisas mundanas eram-me grandemente amargas.

Enfim, tendo sabido que o mesmo Deus resgataria o mundo e ele nasceria de uma virgem, fui tomada de tão grande amor para com ele, que só pensava em Deus, que só queria a deus. Afastei-me, quanto possível, das conversas familiares e da presença de parentes e amigos. Dava aos pobres tudo o que podia e reservava-me apenas o simples vestuário e o pouco de que precisava para viver. Nada me agradava, fora de Deus. Sempre eu desejava em meu coração viver até o tempo de seu nascimento, na esperança de que eu mereceria talvez tornar-me indigna serva da mãe de Deus. Fiz também voto, em meu coração, de guardar a virgindade, se Deus o tivesse por agradável, e nada possuir no mundo. Encontramos revelações muito semelhantes na vida de Santa Isabel da Turíngia.

Além das revelações que se referem à fé, há em Santa Brígida como nas profecias da antiga lei, muitas exortações, advertências, às vezes muito severas a Papas, a reis, a povos, a classes de homens, padres e cavaleiros. Mais de uma vez essas exortações encerraram ameaças proféticas que tiveram sua realização.

No ano de 1371, a ilustre viúva sueca, como outrora a ilustre viúva romana, Santa Paula, da família dos Gracos e dos Cipiões, empreendeu, em idade avançada, ante uma revelação particular, a peregrinação a Jerusalém. Chegando a Roma já enferma, ficou mais doente ainda. Sentindo-se perto do fim, deu avisos muito comoventes ao filho, o príncipe Birger e à filha, Santa Catarina de Suécia, que estava com ela; depois quis ser estendida sobre um cilício para receber os últimos sacramentos.

Morreu, a 23 de Julho de 1373, na idade de setenta e um anos. Enterraram-na na igreja de São Lourenço, in Panis-Perna que pertencia às pobres Clarissas. No ano seguinte, o príncipe Birger, seu filho, e Santa Catarina sua filha, fizeram levar-lhe o corpo para o mosteiro de Watstein, na Suécia. Foi canonizada pelo Papa Bonifácio IX, a 7 de Outubro de 1391.

Fotos: santiebeati.it
(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XIII, p. 273 à 284)

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