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Santo do Dia

São Bernardino de Sena, voz para um mundo em declínio – 20 de maio

SANTO DO DIA – 20 DE MAIO – SÃO BERNARDINO DE SENA
Religioso (1380-1444)

Na Itália, Bernardino nasceu na nobre família senense dos Albizzeschi, em 8 de setembro de 1380, na pequena Massa Marítima, em Carrara. Ficou órfão da mãe quando tinha três anos e do pai aos sete, sendo criado na cidade de Sena por duas tias extremamente religiosas, que o levaram a descobrir a devoção a Nossa Senhora e a Jesus Cristo.

Depois de estudar na Universidade de Sena, formando-se aos vinte e dois anos, abandonou a vida mundana e ingressou na Ordem de São Francisco, cujas regras abraçou de forma entusiasmada e fiel. Apoiando o movimento chamado ‘observância’, que se firmava entre os franciscanos, no rigor da prática da pobreza vivida por são Francisco de Assis, acabou sendo eleito vigário-geral de todos os conventos dos franciscanos da observância.

Aos trinta e cinco anos de idade, começou o apostolado da pregação, exercido até a morte. E foi o mais brilhante de sua época. Viajou por toda a Itália ensinando o Evangelho, com seus discursos sendo taquigrafados por um discípulo com um método inventado por ele. O seu legado nos chegou integralmente e seu estilo rápido, bem acessível, leve e contundente, se manteve atual até os nossos dias. Os temas frequentes sobre a caridade, humildade, concórdia e justiça, traziam palavras duríssimas para os que ‘renegam a Deus por uma cabeça de alho’ e pelas ‘feras de garras compridas que roem os ossos dos pobres’.

Naquela época, a Europa vivia grandes calamidades, como a peste e as divisões das facções políticas e religiosas, que provocavam morte e destruição. Por onde passava, Bernardino restituía a paz, com sua pregação insuperável, ardente, empolgante, até mesmo usando de recursos dramáticos, como as fogueiras onde queimava livros impróprios, em praça pública. Além disso, como era grande devoto de Jesus, ele trazia as iniciais JHS – Jesus Salvador dos Homens – entalhadas num quadro de madeira, que oferecia para ser beijado pelos fiéis após discursar.

As pregações e penitências constantes, a fraca alimentação e pouco repouso enfraqueciam cada vez mais o seu físico já envelhecido, mas ele nunca parava. Aos sessenta e quatro anos de idade, Bernardino morreu no convento de Áquila, no dia 20 de maio de 1444. Só assim ele parou de pregar.

Tamanha foi a impressão causada por essa vida fiel a Deus que, apenas seis anos depois, em 1450, foi canonizado. São Bernardino de Sena é o patrono dos publicitários italianos e de todo o mundo.

Frases de São Bernardino de Sena

01 – “Quando uma alma começa a saborear Jesus, perde necessariamente o gosto do mundo”.

02 – “Ó homem que tanto confias no mundo, já refletiste nos enganos que nele existe?”.

03 – “Se queres ver os teus bens multiplicados, dá esmolas”.

04 – “Não emaranhes o teu falar. Quando falares, fala abertamente, chama pão ao pão, dize com a língua o que trazes no coração”.

05 – “O dar-se Jesus Cristo a nós como alimento foi o último grau de amor. Deus-se a Nós para unir-se totalmente conosco como se une o alimento diário com quem o toma”.

06 – “A primeira grande verdade, agora, está estabelecida, pois uma boa morte depende de uma boa vida”.

07 – “Deus outorgou à Santíssima Virgem tanta graça que mais é impossível conceder a uma criatura, exceto Jesus Cristo”.

08 – “Todo reino que tenha partes, seitas e divisões, fica enfraquecido e desolado, e tudo cairá, uma coisa depois da outra”.

09 – “Quando Deus escolhe alguém para uma missão muito elevada, confere-lhe todos os dons necessários para essa missão”.

10 – “São José, guarda fiel e providentes dos maiores tesouros do Pai eterno: o Filho de Deus e a Virgem Maria”.

São Bernardino de Sena, voz para um mundo em declínio

Quando parecia ter “acabado o vinho” da virtude e da graça, e a Cristandade, decaída, voltava-se ao paganismo, uma figura especialmente eleita se levantou, apontando para Aquele que tudo pode solucionar.

Pelas ruas tortuosas de Siena, um rapaz caminha. A cidade, ocupada em seus trabalhos e intrigas, não o nota. De porte mediano e varonil, semblante agradável e olhar alegre, ele tem inúmeros amigos e todos o estimam; no entanto, está só. Ao menos pensa estar só… Um pouco atrás, escondida entre as casas, uma senhora segue seus passos. Sua fisionomia contrasta com a do jovem, pois anda apreensiva, como se estivesse prestes a se deparar com algo indesejável.

Sim, Tobia estava preocupada. Amava aquele rapaz como a um filho. Embora fossem primos, uma grande diferença de idade os separava, e ela o vira crescer. Filho da nobre família dos Albizzeschi, Bernardino perdera a mãe antes dos três anos e, nem completara os seis, o pai também, ficando entregue aos cuidados de suas três tias — Diana, Pia e Bartolomea — e da prima Tobia, que dele cuidaram e o educaram com todo o esmero.

Bernardino sempre fora muito recatado e suas tutoras haviam se empenhado para que o ambiente no qual transcorreu sua infância não lhe manchasse a inocência. O menino correspondeu a esse desvelo, e à piedade natural se acrescentou a virtude. Entretanto, o tempo tinha passado e Bernardino tornara-se moço. Suas tias e Tobia temiam por ele. Muito o alertaram sobre os perigos do pecado e as más tendências que, ao longo dos séculos, perverteram os jovens.

Um dia, porém, respondendo às suas advertências, Bernardino surpreendera Tobia:

— Estou, de fato, encantado por uma dama muito nobre. Daria minha vida para me alegrar com sua presença, e não dormiria à noite se passasse o dia sem tê-la visto.

Alguns dias depois, Bernardino voltou ao assunto:

— Vou agora ver a minha bela amiga.

— Mas quem é ela? Onde mora? — perguntou-lhe Tobia.

— Além da Porta Camollia.

Nada mais podendo dele saber, a prima, intrigada, decidiu espioná-lo. E ali estava ela, esgueirando-se pelas esquinas da cidade de Siena, na tentativa de não ser vista.

Chegando, por fim, à Porta Camollia, Bernardino parou e, diante de Nossa Senhora Assunta aos Céus, ali representada numa bela pintura, ajoelhou-se. O que ele Lhe disse, Tobia certamente nunca soube, mas o fervor e o enlevo transmitidos por seu semblante deixavam entrever que aquele convívio era mais do Céu que da terra. Depois, levantando-se, o rapaz retornou à casa.

Tobia, sempre às escondidas, voltou a segui-lo durante vários dias, e saiu sempre edificada. Até que conseguiu fazer o primo declarar quem era a nobre dama da qual falava:

— Minha mãe — respondeu ele —, já que vós mandais, direi o segredo de meu coração. Estou apaixonado pela Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus; sempre A amei, por Ela tenho abrasado o coração e a Ela é que desejo ver. N’Ela queria eu fixar para sempre o meu olhar com a veneração que Lhe é devida.

“Nossa Senhora e o Menino com São Bernardino”, por Rutilio Manetti.

A aurora de uma vida sob o auspício da Mãe de Deus

Se grande era o afeto de Bernardino pela Santíssima Virgem, mais excelente era o d’Aquela que o havia amado primeiro. Sim, pois antes mesmo que o conhecimento desse menino se abrisse para as coisas do mundo, antes que seus olhos se encantassem com a criação, antes ainda que sua língua inexperiente balbuciasse as primeiras palavras, Maria o tinha escolhido para Si.

Uma dúvida não tardou a despontar no seu coração juvenil: como dedicar-se a Ela? Em que estado de vida Ela o queria? E foi então que a peste, tão temida e indesejada, bateu às portas de Siena. Bernardino, com apenas dezessete anos, dedicou-se heroicamente no auxílio aos doentes. Depois de quatro meses, esgotado pelos seus trabalhos, caiu ele próprio vítima da peste e parecia estar próximo do fim. Porém, contra a expectativa de muitos, sua saúde se restabeleceu.

O que fazer dessa vida que Maria lhe devolvia? — continuava se perguntando ele. A religião o atraía sobremaneira; seria essa a vontade de Deus? Cheio de fervor juvenil — tantas vezes avesso à prudência e ao “bom senso” — Bernardino tenta a vida de ermitão. Com o seu característico humor, narrará mais tarde essa insólita experiência:

Quero contar-lhes o primeiro milagre que fiz. Isso aconteceu antes de me tornar frade […]. Tomei a resolução de querer viver como um Anjo e não como um homem. Pensei em instalar-me numa floresta e comecei a perguntar a mim mesmo: “Que farás na floresta? Que comerás?’” Respondia-me: “Farei como os Santos Padres; comerei erva quando tiver fome e beberei água quando tiver sede”. […] E, depois de invocar o nome bendito de Jesus, pus na boca uma porção de ervas amargas e comecei a mastigar. Mastigo e mastigo, mas não querem descer. Não podendo engolir, pensei: “Bebamos um pouco d’água”. Pois sim, a água descia e a erva continuava na boca. Bebi vários goles d’água com uma só porção de ervas e não consegui engolir [1].

Dissuadido da vida solitária, por haver compreendido não ser esta a via para a qual a Providência o destinava, seus olhos se voltam para os Frades Menores. Entusiasma-se pela sua regra, e o chamado divino se confirma num sonho. Despojando-se das honras de seu sangue e dos bens terrenos, Bernardino toma o hábito de São Francisco. Era o dia 8 de setembro de 1402, festa da Natividade de Nossa Senhora e data em que ele cumpria vinte e dois anos.

Assim, foi sempre sob o manto protetor da Rainha dos Céus que ele deu os grandes passos de sua vida, como contava:

Nasci no dia da Natividade da Bem-Aventurada Virgem, e no mesmo dia […] renasci, entrando para a Ordem do Seráfico Pai Francisco; neste dia professei os votos na Ordem, neste dia celebrei a primeira Missa e pronunciei o primeiro sermão ao povo sobre a Bem-Aventurada Virgem, de cujo amor e graça espero neste dia também partir desta vida [2].

Incansável dedicação e zelo pelas almas

Em certa ocasião, o jovem franciscano foi assistir a uma pregação de São Vicente Ferrer, cujas palavras sacudiam as multidões, apontando a modorra e o paganismo em que a Cristandade se afundava. No dia anterior, Bernardino conversara pessoalmente com o dominicano, saindo cheio de gratidão e consolo. E São Vicente, discernindo o chamado de seu interlocutor, previu durante o sermão o futuro que o esperava:

Ó meus filhos, está nesta reunião um religioso da Ordem dos Frades Menores, que, em breve, será um homem ilustre em toda a Itália; sua palavra e seus exemplos hão de produzir grandes frutos entre o povo cristão. Exorto-vos, pois, a render graças a Deus; roguemos-Lhe, todos juntos, que cumpra o que me revelou [3].

Algum tempo se passaria até a profecia realizar-se. Por muitos anos, Bernardino se escondeu nas brumas do anonimato. No silêncio do convento, ele subiu os degraus da virtude e do conhecimento, para depois, sobre o púlpito, transmitir não apenas a doutrina, mas irradiar a santidade. E era por ela movidas que as multidões concurrebant ad ecclesias instar formicarum, “acorriam às igrejas como formigas” [4].

Seu zelo incansável vai edificar e converter multidões na Itália, imersa então no neopaganismo renascentista. De 1419 a 1422, sua voz ecoa na Lombardia, acentuadamente em Bérgamo, Como, Mântua, Cremona, Placência e Bréscia. Em cada cidade, detém-se algumas semanas, para logo buscar, a pé, na cidade vizinha, almas a quem fazer o bem.

Método vivo e original de mover os corações

No púlpito, sua genialidade e virtude se unem para atrair os pecadores à amizade com Deus. Conta-se, por exemplo, que chegando à cidade de Perúgia, na Úmbria, encontrou um povo indiferente aos assuntos da Fé, afeito a contínuas e ferozes guerras intestinas. Embora muitos comparecessem às pregações, Frei Bernardino não se dava por satisfeito. Um dia, perante o público reunido, anunciou:

— Caros habitantes de Perúgia, em pouco tempo eu lhes mostrarei o diabo.

Com a curiosidade acesa, no dia seguinte o auditório se multiplicou. E, ao cabo de alguns dias, o pregador declarou:

— Vou cumprir minha promessa e vou lhes mostrar não só um demônio, mas vários.

Todos o fitavam, atentos, imaginando que profundeza haveria de se abrir para o pai das trevas tornar-se visível.

— Olhai-vos uns aos outros — prosseguiu Frei Bernardino — e vereis demônios!

E num tom de extrema gravidade, que não admitia gracejo, o Santo advertiu ao povo que praticava as obras de Satanás e, por isso, merecia ser chamado seu filho. Finalmente a graça, conduzida por Frei Bernardino, atingiu o coração daquela gente e a conversão foi completa.

Com um homem de Deus não se brinca!

Anos depois, porém, a discórdia e a violência reinavam novamente na cidade e o Santo franciscano lá retorna.

— Deus viu vossas dissensões, que Ele detesta — disse, subindo ao púlpito — e me mandou a vós, como seu Anjo, para falar aos homens de boa vontade.

Quatro sermões se seguem, e Bernardino luta para reconciliar aquelas almas. No último dia, conclui solenemente:

— Que todos os homens de boa vontade, desejosos de paz, coloquem-se à minha direita.

O povo, comovido, deslocou-se em massa para a direita do Santo. Todos, exceto um que, desafiante, conservou-se sozinho com sua família à esquerda. Então, o humilde franciscano mostra que o seu zelo também o transformava, na necessidade, em implacável juiz.

— Eis-te sozinho — disse ao infeliz —, obstinado em teu erro. Eu te exorto, em nome de Deus, uma vez mais, a perdoar aos outros, de coração, o que possam ter feito contra ti e tua família. Se não me escutares, podes estar certo de que não voltarás vivo para casa.

Ora, com um homem de Deus não se brinca… Aquele desgraçado não desistiu de sua má conduta e, apenas chegando à casa, morreu, sem receber os Sacramentos da Igreja.

Ao nome de Jesus, todo joelho se dobrará… até na Renascença

Muitos dos sermões de São Bernardino se conservaram para a posteridade. Em estilo fácil, atraentes, repletos de metáforas e exemplos, permitem reconstituir o ambiente que em torno dele se criava e, de certa forma, sentir a graça que sobre ele pairava. Sermões que foram palco de uma grande batalha, à qual o santo franciscano se dedicaria de corpo e alma.

De fato, ao passarmos as páginas que compõem a história de São Bernardino, não podemos desconsiderar a difícil conjuntura na qual se encontrava o mundo, e como a humanidade tomava um rumo completamente oposto ao que a Igreja lhe indicara ao longo dos séculos. Dando as costas ao Sangue que os redimira e inebriando-se com as coisas da terra a ponto de esquecerem-se do Céu, os homens voltavam a embriagar-se com o “vinho velho” do paganismo. Era a brilhante, mas em tantos aspectos reprovável, Renascença que chegava. Expulsava-se Deus de seu trono, e em seu lugar o homem se sentava.

Os frutos de tal inversão de valores não se fizeram esperar: discórdias e guerras, imoralidades e desvarios passaram a formar parte do cotidiano. Faltava alguém que, como Nossa Senhora nas Bodas de Caná, indicasse à humanidade: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5), e a reconduzisse a Jesus. Foi este o papel verdadeiramente marial de São Bernardino.

Por exemplo, reinava grande desavença política entre os habitantes de Veneza, como, aliás, em muitas outras cidades da Península Itálica. As casas eram identificadas por um ­azulejo com o nome ou as armas da família, o qual indicava também o partido dos moradores. Quando Frei Bernardino por lá passou, seu coração inflamado proclamou a todos o nome de Cristo, e os venezianos, comovidos, trocaram as marcas da discórdia por um azulejo com o Santíssimo Nome de Jesus.

E assim, percorrendo as cidades, Frei Bernardino deixava atrás de si o nome de Jesus marcado nos lares e, sobretudo, gravado nos corações.

“São Bernardino de Sena e São João de Capistrano”, por Alonso Cano.

Acusado de heresia…

Não podia ficar inativo o antigo inimigo enquanto o santo franciscano lhe arrancava das mãos tantas almas. E eis que, em Roma, Frei Bernardino é acusado de heresia. Heresia?! Sim, pois houve quem quisesse enxergar aspectos de idolatria na sua forma de venerar o nome de Jesus!

O Papa Martinho V convoca o ilustre pregador para apresentar explicações na Cidade Eterna. O momento é de grande comoção, sobretudo para os católicos italianos, que tanto tinham recebido de Frei Bernardino. Todos parecem temer, menos ele. Muitos que antes o aplaudiam, agora o ultrajam.

Um dia, ao verem com admiração como, após receber grandes insultos, ele se recolhia para estudar calmamente em sua cela, respondeu: “Cada vez que entro em minha cela, todas as injúrias ficam do lado de fora; nenhum ultraje se atreve a entrar comigo, de modo que não me causam nem empecilho, nem desgosto” [5].

Para defender a honra do mestre ofendido, um discípulo seu, também renomado pregador, comparece à Cidade Eterna, portando um ostensivo estandarte no qual se lê o Nome de Jesus: trata-se do audacioso capuchinho São João de Capistrano. Finalmente, ambos comparecem diante do Pontífice e procede-se a um debate entre eles e os opositores. A vitória de Bernardino, ou melhor, de Jesus, é completa; o Papa, em reparação, ordena uma procissão em honra de seu Santíssimo Nome, que a partir de então passa a figurar no alto das igrejas e no cimo dos telhados, também em Roma.

Últimos esforços, dedicação inteira

Mesmo sentindo-se já próximo de seu fim, Frei Bernardino não descansa. Pelo contrário, sedento de almas, vai à busca daquelas que sua caridade ainda não lograra alcançar, e aos que disso procuravam dissuadi-lo, responde: “Não ignoro que estou velho e pouco apto a suportar o cansaço; porém, o amor que me urge, obriga-me, enquanto puder mexer a língua, a nunca deixar de anunciar a Palavra de Deus, a exortar as populações e, para esta obra, empreender viagens, mesmo que fossem em longínquas terras” [6].

“O amor que me urge, obriga-me, enquanto puder mexer a língua, a nunca deixar de anunciar a Palavra de Deus.”

O Reino de Nápoles é o seu próximo destino. Em 30 de abril de 1444, ele deixa Siena secretamente. No caminho, despede-se da velha cidade de Perúgia, de onde parte para visitar por última vez o Convento de Santa Maria dos Anjos, em Assis. Em Espoleto, suas forças começam a faltar. Quando atinge a Cittaducale, na fronteira com o reino napolitano, Bernardino sobe pela última vez a um púlpito. Em Áquila, é obrigado a repousar no mosteiro franciscano.

E então, com sessenta e quatro anos de idade, dos quais quarenta e dois enquanto religioso e, no mínimo, vinte como pregador, Frei Bernardino entrega sua bela alma a Deus. Quisera ele morrer na festa da Natividade ou da Assunção, mas Jesus lhe pedira a renúncia a esse santo desejo. Era a véspera da Ascensão do Senhor.

Decerto, no Céu Bernardino dizia a Deus as palavras que seus irmãos cantavam piedosamente na capela ao render-lhe as últimas homenagens: “Meu Pai, tornei teu nome conhecido aos homens que me deste, e agora rogo por eles, não pelo mundo, pois venho a Ti. Aleluia” [7].

Biografia de São Bernardino pelo Papa João Paulo II

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AO BISPO E AOS FIÉIS DE MASSA MARÍTIMA (ITÁLIA) POR OCASIÃO DO VI CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE SÃO BERNARDINO

Venerado Irmão e caríssimos Filhos

1. Na minha recente peregrinação à terra de Abruzos tive a alegria de ajoelhar-me diante da urna que, em Aquila, conserva o corpo incorrupto de São Bernardino de Sena, o franciscano a quem a vossa Cidade se gloria de ter dado nascimento, precisamente há seis séculos, e recordei a figura e obra apostólica do vosso grande Concidadão.

Na presente circunstância, gostaria de retomar convosco o assunto então começado, com o desejo de melhor desenvolver a reflexão sobre o testemunho de fidelidade ao Evangelho, que este . insigne Santo nos deixou. Em Bernardino, está-se diante de um modelo acabado de homem, de religioso e de apóstolo, para quem a nossa época pode ainda olhar a fim de colher a indicação das oportunas soluções para os numerosos problemas que a afligem.

2. Primeiro que tudo, o homem. De mente aberta à fascinação da verdade e do bem, vivamente sensível às sugestões da beleza, Bernardino deu prova de singular riqueza de qualidades humanas, fundidas entre si num equilíbrio tão perfeito que despertavam a concorde admiração dos contemporâneos. Essa harmoniosa personalidade, por outro lado, não constituiu apenas fruto de um. feliz concurso de circunstâncias casuais. Estava na base um esforço, ascético, fundamentado numa clara visão antropológica.

O homem é imagem de Deus, proclama Bernardino seguindo a Bíblia. Como tal, deve-se conformar com Ele em todas as acções, mas sobretudo nas intenções profundas do coração (cf. S. Bernardini Senensis Opera Omnia, Quaracchi 1950-1959, vol. II, p. 300). “Deus criou todas as criaturas para o homem, e o homem para Si” repete o nosso Santo juntamente com Agostinho (cf. op. cit., p. 161). Todavia, sendo embora o mais nobre dos animais, é também o mais ingrato: “Grande é a ingratidão e a ignorância cega dos homens! Os outros animais são domesticados pelos benefícios; só os corações dos homens são endurecidos e cegados pelos benefícios de Deus” (Opera omnia, cit., vol. III, p. 347).

O homem é, por isso, criatura que, mais que as outras, tem necessidade de disciplina: “Os homens são incomparavelmente mais nobres e mais preciosos que os outros animais, mas são também os mais inclinados ao mal e mais nocivos pelos maus hábitos, e mais perturbam a paz civil; portanto com maior disciplina devem ser guardados, curados e enfreados pela justiça” (Opera omnia, cit., vol. III, p. 300). Todo o esforço humano, todavia, resultaria inútil sem o contínuo socorro da graça de Deus, “porque sem a Sua ajuda não se pode oferecer nenhuma resistência à batalha do demónio, do mundo e da carne” (cf. Prediche volgari, ed. do P. Ciro Cannarozzi, O.F.M., Firenze 1940, vol. III, p. 224).

Por sua felicidade o homem não está só nesta luta: ao lado dele está Deus, que não se cansa de oferecer-lhe o apoio da Sua mão salvadora: mão que, se às vezes fere, é todavia movida, sempre e só, pelo amor (cf. ibid., pp. 242-257).

Esta, na substância, a mensagem que Bernardino propõe aos seus ouvintes, explicando o seu conteúdo segundo as exigências específicas das diversas categorias. Dirige-se aos casados, aos jovens, aos adolescentes e às crianças, aos negociantes, aos estudantes, aos governantes, aos súbditos, aos leigos e ao clero. Fala recorrendo à Sagrada Escritura, aos exemplos dos Santos, aos ditos dos poetas; teólogos e juristas, filósofos e artistas estão sempre nos seus lábios, como testemunho do longo tirocínio cultural por ele suportado em preparação para o ministério. da pregação.

3. De não menos interesse é o testemunho que Bernardino nos oferece como religioso. Aos 22 anos, depois de uma experiência de trabalho social e caritativo com poucos outros jovens senenses, durante a peste que ia despovoando a cidade, pediu para entrar entre os Frades Menores. Escolheu o grupo que estava então renovando a Ordem, no regresso à observância rígida e austera, reflorescida em Brogliano com frei Pauluccio Trinci, de Foligno, e depois com frei Giovanni de Stroncone. A sua experiência heróica de caridade entre os empestados e a natural propensão para o cargo de “agente de paz” e de exemplar guarda da castidade entre os jovens de Sena, no Estudo da cidade e na Companhia de Santa Maria da Escada, foram o melhor bilhete de apresentação para conseguir ser recebido entre os Franciscanos.

Pelos biógrafos sabemos que principiou quase logo a dirigir os seus irmãos como Superior local e provincial, na Toscana e na Úmbria, até coroar o “serviço aos irmãos” como Vigário-Geral da Observância. Foram cerca de 300 os conventos por ele renovados ou aceitos entre os Observantes, aqui a acolá pela Itália.

Assim como na qualidade de leigo estimulara os amigos às obras de caridade e de heróica assistência social, assim também como religioso soube infundir nos Irmãos o ardor do seu zelo em seguia as pisadas do “Poverello” no caminho do radicalismo evangélico. A fascinação da sua personalidade conquistava todos os que se aproximavam dele. Quanto mais clara era a apresentação que fazia das exigências austeras da Regra, tanto maior era o fervor com que eles corriam atrás do mestre, no desejo de lhe emular as virtudes (cf. Holzapfel H., Manuale historiae OFM, Friburgi Brisgoviae, 1909, pp. 81-85).

Desta sorte, o movimento da Observância, iniciado com os irmãos leigos, toma-se com São Bernardino nova força, de espiritualidade e cultura, que estimula todo o franciscanismo a vencer as fraquezas humanas, os cansaços da rotina, e lhe favorece o reflorir com abundante número de jovens estudantes universitários, empenhados no estudo da teologia, da moral, do direito, e no apostolado popular em toda a Itália. Entre estes sobressaem os amigos íntimos de Bernardino: São João de Capestrano, São Tiago da Marca, o Beato Alberto de Sarteano e outros muitos, na Úmbria, na Toscana, nas Marcas, na Itália e fora da Itália. E “bernardinos” se chamarão os Observantes de algumas regiões da Europa, como por exemplo na minha pátria, a Polónia.

4. Bernardino, homem de êxito e religioso exemplar, fica na história da cristandade sobretudo como apóstolo. Pregador itinerante, como Cristo e como os Apóstolos, fez do púlpito a sua cátedra. Foi o maior pregador popular da época, tanto que o século XV foi definido “o século de Bernardino”. Em muitas partes da Itália central e setentrional surgem altares, oratórios e templos, erectos em memória das suas pregações e dos seus milagres. Admirado pelos simples como pelos doutos, pelos magistrados como pelos homens da Igreja, Bernardino foi pedido como Bispo em Sena, em Ferrara e em Urbino. Recusou sempre, para manter a liberdade de levar a sua palavra a toda a parte aonde fosse requerido, estando intimamente convencido de ter recebido de Deus a chamada a este ministério, e não a outro.

Pelo seu exemplo e pela sua palavra dita ou escrita, foi renovada a pregação italiana. Disso restam documentos nos volumes das suas “Prediche volgari”, feitas em Florença e em Sena, nos esquemas de sermões latinos, que ele mesmo e os discípulos recolheram ` para serviço dos outros pregadores, nas obras de teologia moral ou ascética, redigidas para a escola e para a vida dos seus Irmãos.

5. Bernardino de Sena fica na história da pregação, da teologia e da ascética, sobretudo como apóstolo do Nome de Jesus. Impressionado pela advertência de Cristo: “E tudo quanto pedirdes em Meu nome, Eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14, 13), não pára de fazer-se eco da mesma: pedir ao Padre em nome do Filho é reconhecer o plano de Deus, que desejou servir-se do Verbo encarnado para nos salvar. Nós podemos e devemos santificar-nos por meio da invocação do Filho, cuja mediação nos abre o caminho de acesso ao Pai. O nome de Cristo, portanto, significa misericórdia para com os pecadores, força para vencer na luta, saúde para os enfermos, alegria e exultação para quem o invoca com devoção nas várias circunstâncias da vida, glória e honra para quantos nele têm fé, conversão da tibieza em fervor da caridade, certeza de ser ouvido para quem o invoca, doçura para quem devotamente o medita, suavidade inebriante para quem na contemplação lhe penetra o mistério, fecundidade de méritos para quem é ainda peregrino, glorificação e beatitude para quem já chegou à meta, o Nome de Jesus foi a bandeira, impugnando a qual São Bernardino enfrentou as situações mais difíceis, conseguindo triunfar delas: foi nesse Nome que ele obteve a pacificação das facções rivais, o melhoramento dos costumes, o reavivamento da fé e o incremento da prática cristã.

6. Tema fundamental da pregação do nosso Santo foi também a devoção à Virgem Maria, considerada sobretudo como Mãe de Deus é Medianeira de perdão e de graça. São Bernardino medita, saboreando-as, as páginas do Evangelho que falam de Nossa Senhora, comemora-lhe as festas, comenta-lhe os títulos, ilustra-lhe os mistérios, a começar da sua Conceição imaculada até à sua gloriosa Assunção ao Céu.

Os exemplos da sua vida oferecem-lhe o ponto de partida para sempre novas aplicações morais, que propõe às várias categorias de pessoas, mas em particular aos jovens e às jovens, com tal fervor de sentimento e vigor de palavras e de imagens, que suscita a adesão entusiasta do auditório. A todos pede com insistência que recorram confiadamente à maternal intercessão de Maria, cuja palavra tanto pode sobre o coração de Deus: “Portanto rogar-lhe-emos que peça ao seu doce Filho Jesus que, pelos seus méritos, nos dê graça neste mundo, para depois no outro nos dar a glória infinita” (Prediche volgari, cit., vol. II, p. 420).

Com esta exortação apraz-me concluir a presente Mensagem, uma vez que na assídua invocação da Virgem Santa e na generosa imitação das suas virtudes reside o segredo daquela profunda renovação de mentalidade e vida, que foi o ideal seguido coro zelo infatigável pelo vosso santo Concidadão.

Ao renovar a expressão dos sentimentos de paternal afecto que sinto por essa Comunidade, na qual se acendeu há seis séculos a estrela que devia brilhar imperecível no céu da Igreja, concedo de boa vontade, a cada um dos seus membros e ao seu venerado Pastor, a minha Bênção Apostólica, propiciadora de todos os desejados dons divinos.

Do Vaticano, a 7 de Setembro do ano de 1980, segundo de Pontificado.

JOÃO PAULO PP. II