Categorias
CNBB

CNBB repreende bispos que fizeram carta de apoio a Lula

“Conforme disposto em seu Estatuto Canônico, a competência para agir e se pronunciar oficialmente em nome da instituição é atribuída à Assembleia Geral, ao Conselho Permanente e à Presidência”, disse hoje (23) a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em nota oficial que esclarece quais órgãos podem se manifestar em seu nome.

Por ACI Digital – O esclarecimento foi publicado depois que cerca de 60 bispos assinaram uma carta de apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de críticas ao senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à presidência. A CNBB, porém, não mencionou a carta nem explicou se o esclarecimento sobre a competência para falar em seu nome tem relação com a manifestação dos bispos.

Segundo a nota, “o artigo 77, Seção II – Atos e Pronunciamentos” da Conferência dizem que, “pronunciam-se e agem publicamente, seja em nome próprio, seja em nome de toda a Conferência, a Assembleia Geral, o Conselho Permanente e a Presidência.”

O documento também explica que “as Comissões Episcopais podem se pronunciar dentro de suas respectivas áreas de competência, desde que em consonância com o Conselho Permanente. Já os Conselhos Episcopais Regionais podem agir e se manifestar dentro de sua jurisdição, em harmonia com a orientação da Conferência em nível nacional”.

“Dessa forma, no cotidiano da vida institucional da CNBB, é a Presidência quem detém a autoridade para se manifestar oficialmente em nome da Conferência”, afirma a nota.

Ao final do comunicado, a Conferência ressaltou que, “assim sendo, nenhuma pessoa física ou jurídica tem capacidade e habilitação canônica e cível para se pronunciar oficial e legitimamente em nome da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), além daquelas precedentemente citadas”.

‘O púlpito não é palanque’, reage bispo de Federico Westphalen a carta de bispos apoiando Lula

blank

“O púlpito não é palanque. O altar não é comitê”, escreveu o bispo de Frederico Westphalen (RS), dom Antonio Carlos Rossi Keller, em nota pastoral publicada hoje (23) sobre o segundo turno das eleições. No texto, ele critica a carta de apoio a Lula assinada por 61 bispos até a publicação desta matéria.

Na nota intitulada “A Doutrina Social não se cita pela metade”, dom Antonio compara a mensagem do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), divulgada na quarta-feira (21), à carta do grupo de bispos, publicada no dia seguinte.

O bispo classifica a primeira como “uma importantíssima mensagem”, que “convocava os católicos ao compromisso cívico, à defesa da Constituição e do Estado Democrático de Direito, ao discernimento sobre a trajetória dos candidatos e à participação consciente no pleito”.

A carta dos bispos a que se refere dom Antonio, embora não mencione os candidatos pelo nome, apoia a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e apresenta posições do senador Flávio Bolsonaro (PL) como contrárias à Doutrina Social da Igreja. O documento aborda temas como legislação trabalhista, acesso a armas, meio ambiente e soberania nacional.

“Duas palavras em dois dias. Não afirmo que se contradigam em tudo. Digo que produzem, no fiel comum, o efeito da contradição. Um documento orienta; o outro aponta e indica. Um fala na gramática da consciência; o outro, na gramática da conclusão e da indicação sobre o que fazer. E o povo, que não distingue documentos com a precisão dos canonistas, ouviu o mesmo sino tocar duas vezes com sons diferentes”, escreveu dom Antonio.

“Não acuso de má-fé. Registro um fato: Um documento que se propõe corrigir a consciência dos católicos em nome da Doutrina Social não pode omitir o que a Doutrina Social tem como fundamento”, continua o bispo. “Citada pela metade, ela deixa de ser doutrina e passa a ser instrumento. E instrumento, mesmo quando manejado com boa intenção, serve sempre a alguém e a algum interesse”.

Igreja não tem competência para decidir pelo fiel

“Um documento assinado por bispos que, sem nomear a ninguém, permite ao leitor identificar com segurança um candidato e concluir por sua rejeição, já não opera no terreno dos princípios. Opera no terreno das opções contingentes — e ali a Igreja não tem competência para decidir pelo fiel”, disse.

“Escrevo como bispo, em nome próprio. Não represento a Conferência, não falo em nome de Província Eclesiástica alguma, nem por nenhum Regional da CNBB, nem por nenhum grupo e ainda mais, não julgo as intenções de ninguém”, disse. “Escrevo porque a confusão dos simples é matéria grave, e porque me parece que alguns não a estão levando em consideração com clareza”.

O bispo reconhece o direito dos bispos de se manifestarem sobre assuntos públicos e afirma que a Igreja seria omissa se permanecesse calada diante de ameaças reais à dignidade humana.

“A questão não é o direito. É o modo, o momento e o uso que se faz da doutrina.

Princípios não negociáveis

Para dom Antonio, o ponto central de sua reflexão é que a “Doutrina Social da Igreja não é uma coleção de capítulos autônomos de onde se retiram os que convêm ao argumento do momento”.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“É um corpo orgânico, nascido de uma única fé e ordenado a um único princípio: a dignidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus, anterior ao Estado e superior a ele”, escreveu.

Ele diz que a carta assinada pelos mais de 60 bispos “invoca essa doutrina em matéria de trabalho, de armas, de meio ambiente e de soberania”.

“É legítimo fazê-lo. Mas o silêncio também ensina, neste caso um silêncio gritante”, pois “nada se diz sobre a vida humana inocente desde a concepção — o primeiro dos direitos”.

“Nada se diz sobre a ideologia de gênero apresentada como projeto pedagógico, nem sobre a concepção cristã de casamento e de família, nem sobre o direito dos pais à educação dos filhos”, continua.

Ele também fala de referências à propriedade privada e sua função social, à subsidiariedade, à legítima autonomia das realidades temporais, à liberdade de iniciativa econômica e aos riscos do centralismo estatal.

“Nada se diz sobre a liberdade religiosa e sobre o direito de crer e de viver publicamente segundo a própria fé”, acrescenta.

“São exatamente esses os pontos que a Igreja chama de não negociáveis na avaliação de um programa político. São exatamente esses os pontos que a carta omitiu”, afirma dom Antonio.

Acusações exigem demonstração

Dom Antonio também questiona a fundamentação das advertências feitas na carta. Segundo ele, qualificar uma candidatura como ameaça à democracia é uma acusação grave que exige prova”

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“Interpretações podem ser legítimas, mas não podem ser apresentadas com a autoridade do ensino. O ônus da prova pertence a quem acusa — e, em documento episcopal, esse ônus é mais pesado, mais grave.”

O bispo alerta que “estabelecido o precedente de que um grupo de bispos pode, dias antes do pleito, produzir um juízo prático de voto sob a aparência de reflexão doutrinal, esse precedente servirá amanhã a outros grupos, com outras conclusões, invocando o mesmo direito”.

Questão social não se resolve só com assistência

“A carta fala dos pobres com solicitude, e nisso faz bem”, escreve, mas, “a Igreja sustenta que a questão social não se resolve pela assistência”.

“Programas de transferência são necessários como emergência; convertidos em sistema permanente, produzem dependência, e a dependência produz clientela. Paliativo que se perpetua deixa de ser remédio e passa a ser método de governo”, disse.

“Não se pode denunciar a insensibilidade social de um candidato e permanecer em silêncio sobre o campo político oposto que há décadas ocupa o poder federal, que anuncia em cada eleição a transformação que não realizou quando teve os meios para realizá-la, e que fez da pobreza, mais do que um problema a resolver, um eleitorado a conservar”, escreveu.

Escândalos corroem a democracia

O bispo também pede que a defesa da democracia e da ordem institucional seja acompanhada da cobrança de probidade dos governantes e de quem exerce funções de julgamento.

“A confiança pública é um bem moral, e o descrédito das instituições não se cura com apelos à simples defesa da instituição: cura-se com exemplaridade. Escândalos sucessivos, em qualquer dos poderes, corroem mais a democracia do que qualquer discurso de campanha.”

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Dom Antonio ressalta que não enumera casos nem menciona pessoas porque considera que acusações graves exigem provas, regra que afirma aplicar também a si próprio.

Responsabilidade pessoal do eleitor

Na orientação aos fiéis, o bispo distingue a representatividade da mensagem do Conselho Permanente da CNBB daquela da carta assinada por um grupo de bispos.

“Nenhum dos dois documentos é boletim de partido. A mensagem da Conferência tem o peso da representatividade de uma colegialidade; a carta tem o peso de um grupo. Não são equivalentes em autoridade, e tratá-las como equivalentes é o primeiro erro”.

“A Igreja ensina princípios morais, e nisso deve ser obedecida”, diz. “Sobre a escolha concreta entre programas contingentes, a competência é do leigo, que age com autonomia nas realidades temporais, como recordam a Gaudium et Spes e a Christifideles laici. O voto é ato de responsabilidade pessoal, não de obediência eclesiástica”.

Ele recomenda que os eleitores examinem o que os candidatos “pensam da vida nascente, da família, da liberdade educativa, da propriedade, da liberdade econômica, do papel do Estado, de como superar a pobreza endêmica de nosso povo, das injustiças e comprometimentos socias que esmagam nosso povo mais simples”.

“E pergunte, com o mesmo rigor, sobre probidade, sobre o uso do dinheiro público e sobre o compromisso com a verdade. A resposta de cada um, comparada com a Doutrina Social inteira, formará um juízo. Um juízo incômodo, provavelmente”, diz.

“Nenhum programa político realizará o Reino de Deus, e nenhum partido é a Igreja”, afirma.

“A Igreja não tem partido: tem os pobres, tem os sacramentos, tem a verdade. Perder qualquer um desses bens em troca de influência num pleito é negócio que nenhuma comunidade católica pode aceitar. Não vale a pena alimentar tal divisão”, conclui.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Fonte ACI Digital

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE