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Total Consagração a Nossa Senhora

Anunciação, a Festa dos Escravos de Maria

 

Nas proximidades da comemoração da Anunciação de São Gabriel a Nossa Senhora, celebrada no dia 25 de março, acompanhemos essa piedosa formação sobre essa visita que o Arcanjo fez à sua Rainha, Maria Santíssima, e o ato de escravidão de Nossa Senhora à vontade de Deus.

Leia um trecho do texto de São Luiz Maria Grignion de Montfort:

Primeiro texto: “Os que empreendem esta santa escravidão devem ter especial devoção ao grande mistério da Encarnação da Verbo. De fato, a Encarnação é o mistério próprio desta prática, porque é uma devoção inspirada pelo Espírito Santo:

* Primeiro, honrar e imitar a inefável dependência que Deus, o Filho, tinha prazer em ter sobre Maria, para a glória de seu Pai e nossa salvação. Esta dependência aparece de maneira particular neste mistério, onde Nosso Senhor Jesus Cristo é um cativo e um escravo no seio da Santíssima Virgem, e depende dela para todas as coisas.

* Em segundo lugar, agradecer a Deus pelas graças incomparáveis ​​que Ele deu a Maria e, particularmente, por tê-la escolhido para ser Sua Mãe mais digna, a escolha que foi feita neste mistério.” (Verdadeira Devoção a Maria, Publicações Montfort, 1975, p. 165).

Segundo texto: “O tempo não me permite explicar aqui as grandezas e grandezas do mistério de Jesus que vive em Maria, ou seja, a Encarnação da Verbo. Eu vou me contentar em dizer estas poucas palavras. Temos aqui o primeiro mistério de Jesus Cristo – o mais oculto, o mais exaltado e o menos conhecido. É nesse mistério que Jesus, em sintonia com Maria, escolheu todos os eleitos. Por esta razão, seu útero é chamado pelos santos de aula sacramentorum, a sala dos segredos de Deus. Deste mistério, Ele realizou todos os mistérios subsequentes de Sua vida. Por isso, esse mistério é a soma de todos os mistérios e contém a vontade e a graça de todos. Finalmente, este mistério é o trono da misericórdia, a liberalidade e a glória de Deus.” (Ibid., p. 167)

Assista o vídeo antes de continuar a leitura:

Comentários do Prof. Plinio:

Estes dois textos são relacionados. Primeiro, São Luiz Grignion de Montfort afirma que o mistério da Encarnação é por excelência o mistério ao qual os escravos de Nossa Senhora devem ter devoção. Segundo, ele sustenta que o mistério da vida secreta de Jesus em Maria é o misterio que contém todos os outros, que é o ponto de partida para todas as maravilhas da vida d’Ele.

Iremos analisar a primeira parte e, depois, a segunda.

O Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora é, em minha opinião, um livro profético naquilo que afirma sobre os mistérios e a devoção a Nossa Senhora. Vê-se que as coisas profundas que São Luiz de Montfort diz serão desveladas na medida em que a teologia se desenvolver no Reino de Maria. Hoje, o sentido de suas palavras não pode ser inteiramente entendido. Por exemplo, quem pode entender inteiramente sua afirmação de que Nosso Senhor era escravo de Nossa Senhora durante o tempo em que Ele viveu nela? Depois da Anunciação e do fiat de Nossa Senhora, Nosso Senhor se fez carne em seu ventre. A partir daquele momento, Ele tinha conhecimento perfeito de tudo. Ele estava enclausurado dentro dela, vivendo em contacto exclusivo com ela, numa completa dependência dela, a mais completa dependência que uma pessoa pode ter em relação a outra.

O Verbo Encarnado, completamente lúcido desde o primeiro momento de Seu ser, escolheu esta vida dentro de outra creatura. Era Seu desejo viver dentro daquele templo, daquele palácio, numa relação misteriosa com Nossa Senhora.

Deus manifestou Sua onipotência na Encarnação. Ele também manifestou Seu poder mantendo Nossa Senhora Virgem antes, durante e depois do parto. Tudo o que diz respeito à Incarnação é tão extraordinário que Ele poderia ter feito com que Nosso Senhor nascesse brevemente após a concepção. Mas Ele escolheu de não fazer isto. Ele quiz viver os nove meses inteiros nela. Ele quiz estabelecer aquela especial dependência dela. Quiz ter aquela profunda e misteriosa relação de alma com ela. Em suma, Ele quiz se fazer escravo dela – mas um tipo especial de escravo – porque o escravo normal tem sua vida própria, ele respira por si próprio, ele tem liberdade de ir e vir. O que Ele quiz fazer era mais do que isso; Ele quiz depender inteiramente de Nossa Senhora.

Que tipo de relacionamento de almas foi estabelecido durante aquele período? Que tipo de união se deu? Esta é uma material impenetrável. Mas, apenas para ter um ponto de referência, podemos considerar que no mistério da Encarnação Nosso Senhor assumiu a natureza humana – isto é, além de ser Deus, Ele se tornou verdadeiro homem. Ele adquiriu alma e corpo como nós. Como nós Ele era um descendente de Adão e Eva. Mas, paralelamente, Sua alma humana tinha – e tem – uma tão íntima união com Deus que Jesus Cristo é parte da Santíssima Trindade. Em Jesus Cristo não há duas pessoas; há apenas uma Pessoa, mesmo que alma humana de Cristo tenha sido criada. Como pode uma alma humana constituir uma pessoa com Deus? É um mistério. A teologia nos ensina que essa é uma união hipostática, mas isso não explica o mistério.

Considerando Suas naturezas humana e divina, como se pode explicar que Nosso Senhor tenha gritado do alto da Cruz: “Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonastes?” Naquele momento Ele continuava a ser Deus, mas Ele escolheu de sofrer em Sua humanidade um tipo de desamparo e isolamento que O fez sentir um completo abandono na Sua natureza humana, embora Ele continuasse unido com Deus em Sua divindade. Uma vez mais, temos um mistério.

A união de Nosso Senhor com Nossa Senhora quando Ele estava no claustro dela é menos do que Sua união hipostática, mas é similar a ela. Ela é interiamente incompreensível, mas um dia virá em que a humanidade receberá luz para a entender. Eu creio que no Reino de Maria uma explicação teológica virá para a maior glória de Deus e o bem das almas.

Ainda há muitos pontos místicos a serem explicados relacionados com a união que Nossa Senhora tem com cada um de seus escravos, a qual é incomparavelmente menos do que o divino mistério de sua união com Nosso Senhor.

Todos esses mistérios estão na mesma linha, mas nós não os sabemos explicar. O que podemos ver, entretanto, é que esses mistérios vão numa direção diametralmente oposta à Revolução em duas de suas principais doutrinas: Panteismo e Individualismo.

O Panteismo diz que tudo é deus; uma coisa não é essencialmente distinta da outra. Todas as criaturas estão unidas umas com as outras constituindo todas uma só pessoa.

O Individualismo afirma que cada um é ele mesmo por si só e não necessita estar unido com mais ninguém.

A posição Católica é oposta a estes dois erros. Ela afirma que cada pessoa é ela mesma, é um indivíduo, mas está aberta a um relacionamento com os outros que serve para aperfeiçoar a sua pessoa. A explicação profunda de como isso ocorre, contudo, é outro mistério o qual eu espero que a teologia e a filosofia explicarão no Reino de Maria.

Uma vez li um livro de revelações – não me recordo se o autor era uma pessoa piedosa ou um santo – afirmando que quando as relações de Nosso Senhor com Nossa Senhora forem explicados, será achada a chave para a interpretação do Apocalipse. Então, uma nova aurora teológica brilhará sobre o mundo, a qual iluminará e expandirá os prévios horizontes teológicos. Creio que devemos esperar e rezar para que esses mistérios interligados sejam um dia desvelados.

São Luiz de Montfort sustenta que o mistério da Encarnação contém todos os outros. Sabemos que em cada dia de festa a Igreja nos dá graças especiais relacionadas com aquela festa. Portanto, no dia da Anunciação do Anjo e da Encarnação do Verbo esses mistérios inter-relacionados exalam um perfume especial ligado à união misteriosa entre Nosso Senhor e Nossa Senhora.

Nós deveríamos nos encomendar muito a Nossa Senhora nesse dia de festa e pedir a ela de iniciar conosco uma relação de alma de Senhora e escravo. Deveríamos pedir a ela de nos fazer seus humildes súditos, como o Menino Jesus quando Ele vivia nela.